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Histórias Esalqueanas

Elas sempre existiram

Por Jéssica Gimenes · (Cu)2leko · F-17

Estátua de Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz na ESALQ
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Em 2024 eu organizei um evento e decidi que a lista de palestrantes seria equilibrada: metade homens, metade mulheres.

Parecia simples.

Não foi. Os nomes masculinos chegavam sozinhos, por indicação, por lembrança, por "fulano fala muito bem". Os femininos eu precisava caçar. E no dia do evento, mesmo com todo o esforço, havia mais homens no palco.

Onde estavam as mulheres?

Eu sei a resposta, e você provavelmente também sabe. Estavam em fazendas, laboratórios, multinacionais, ministérios, startups. Estavam liderando. Só não estavam na lista de ninguém.

Quando uma empresa diz que "é difícil encontrar mulheres qualificadas para a liderança", o que exatamente ela está procurando? E onde?

Porque eu conheço dezenas. Você deve conhecer outras dezenas. Por que essas listas nunca se cruzam?

Quando eu quis uma mentora, uma mulher que já tivesse feito o caminho que eu estava começando, procurei. Não encontrei.

Acabei sendo mentorada por um homem.

Não é uma reclamação. É uma pergunta: quantas de nós tiveram a mesma experiência? E quantas mulheres que poderiam ter sido mentoras nunca souberam que alguém estava procurando por elas?

A ESALQ tem uma das redes mais fortes do país. Esalqueano liga para esalqueano, indica, abre porta. Todo mundo que passou por Piracicaba sabe disso.

Então por que nós, mulheres, não fazíamos o mesmo entre nós?

Falta de vontade não era. Eu morei na República Caipiradas, que ajudei a fundar. Lá a doutora puxava a bitcha sem ninguém pedir. A gente dividia casa, conta, prova e crise. Ninguém chamava aquilo de rede. Mas era.

Caneca da República Caipiradas
A caneca da República Caipiradas, do primeiro churrasco de pais.

O que acontece com isso depois da formatura? Para onde vai?

Em abril de 2026 eu abri um formulário para testar uma hipótese: e se essa rede já existisse, só esperando um convite?

Em 45 dias, sem anúncio, mais de 150 mulheres se inscreveram. De turmas de 1980 a 2026. Em mais de 140 organizações, no Brasil e fora dele. Mais da metade em cargos de liderança. Quase 60% das esalqueanas inscritas moraram em república.

Quem é a Rede Ermelinda Ottoni — retrato agregado das inscritas
O retrato agregado das mulheres que se inscreveram na rede, sem nomes e sem contatos.

Cento e cinquenta mulheres em um mês e meio, só no boca a boca.

Difícil encontrar?

A Escola onde tudo isso começou deve a própria existência a uma mulher. Quando Luiz de Queiroz morreu, foi Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz quem decidiu que o projeto não ia parar ali. Sem ela, talvez a ESALQ nem existisse.

Jéssica Gimenes ao lado da estátua de Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz
Na ESALQ, ao lado da estátua de Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz.

Quantas de nós aprendemos o nome dela durante a graduação?

Por isso a rede se chama Ermelinda Ottoni.

Eu não sei todas as respostas. Sei algumas perguntas que quero parar de ouvir:

"Você conhece alguma mulher para esse painel?"

"Por que é tão difícil achar mulheres para essa vaga?"

"Com quem eu posso conversar sobre isso?"

Talvez, daqui a alguns anos, alguém leia este texto e pergunte: precisava mesmo de uma rede para isso?

Espero que a resposta seja não.