A Escola onde tudo isso começou deve a própria existência a uma mulher. Quando o marido morreu sem ver seu sonho concretizado, foi Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz quem decidiu que o projeto não ia parar ali — e sozinha, viúva e sem filhos, levou adiante a fundação da escola que hoje forma milhares de agrônomas e agrônomos. Sem ela, a ESALQ provavelmente não existiria. Ainda assim, por mais de um século sua história ficou em segundo plano, ofuscada pelo nome do marido. É por isso que a nossa rede carrega o nome dela.
Quem foi Ermelinda Ottoni
Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz nasceu no Rio de Janeiro em 21 de março de 1856, quinta filha de Christiano Benedicto Ottoni — engenheiro, professor, conselheiro do Império e senador tanto no Império quanto na República — e de Bárbara Balbina de Araújo Maya Ottoni. Cresceu, portanto, em uma família de forte presença pública, o que ajuda a explicar o temperamento independente e o desembaraço com que, mais tarde, participaria diretamente dos negócios do marido.
Em 1880 casou-se com o fazendeiro paulista Luiz Vicente de Souza Queiroz e foi viver com ele em Piracicaba, no Palacete Boyes. O casal não teve filhos, mas construiu uma parceria de vida e de negócios pouco comum para a época: Ermelinda acompanhava o marido em viagens ao exterior em busca de referências para os empreendimentos da família e participava das reuniões em que se discutiam decisões empresariais — uma presença ativa que os registros da época já destacavam como fora do comum para uma mulher de sua geração.
Uma sócia à frente do seu tempo
Luiz e Ermelinda foram protagonistas de alguns dos primeiros investimentos em infraestrutura de Piracicaba: a dupla esteve por trás da chegada da telefonia à cidade, em 1882, e da usina que levou energia elétrica e iluminação pública ao município, em 1893 — décadas antes de esse tipo de serviço se tornar comum no interior paulista. Historiadores que estudaram o casal, como Jacques Marcovitch, colocam Ermelinda ao lado de nomes como a educadora norte-americana Miss Martha Watts entre as mulheres que mais marcaram a Piracicaba do fim do século 19.
A doação da fazenda e o nascimento da ESALQ
Foi esse mesmo espírito empreendedor que levou Luiz de Queiroz a sonhar com uma escola de agronomia: ele via que tanto os negócios da família quanto o desenvolvimento do país dependiam de conhecimento técnico e científico aplicado à agricultura. Em 1892, o casal doou ao governo do Estado de São Paulo a Fazenda São João da Montanha, em Piracicaba, com uma condição: a de que ali fosse fundada, em até dez anos, uma escola de agronomia.
Luiz de Queiroz não viveria para ver esse sonho realizado — morreu em 11 de junho de 1898, aos 49 anos, sem filhos e sem que a escola tivesse sido construída. Coube então a Ermelinda, já viúva, garantir sozinha que o compromisso fosse cumprido dentro do prazo estabelecido na doação. Em 3 de junho de 1901, a Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" foi finalmente inaugurada — batizada em homenagem ao marido, mas erguida graças à insistência dela. Mais de três décadas depois, em 1934, a escola seria incorporada à recém-criada Universidade de São Paulo, tornando-se a ESALQ que conhecemos hoje.
Um nome quase esquecido
Apesar de ter sido a responsável direta pela concretização da escola, Ermelinda foi, por mais de cem anos, lembrada apenas como "a esposa de Luiz de Queiroz" — quando lembrada. Ela faleceu em 7 de abril de 1936, aos 80 anos, e em 1964 seus restos mortais foram transferidos para um mausoléu erguido em sua homenagem dentro do próprio campus da ESALQ, em Piracicaba, onde permanecem até hoje.
O resgate de uma história
Nos últimos anos, o papel de Ermelinda na fundação da ESALQ vem sendo redescoberto e celebrado. Em junho de 2021, por ocasião dos 120 anos da escola, a ESALQ/USP inaugurou uma estátua em bronze em sua homenagem, no chamado Espaço Cultural Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz, no Jardim das Rosas do campus — obra do artista Edu Santos, fundida na FundiArt de Piracicaba. Na mesma ocasião, a instituição também prestou homenagem a outras mulheres que, ao longo da história da escola, ajudaram a construir o legado que a ESALQ carrega até hoje.
Em 2023, um grupo de ex-alunas da ESALQ fundou a banda Ermelindas, batizada com esse nome justamente para manter viva a memória da fundadora. E em março de 2025, a revista institucional ESALQ Sempre dedicou sua sexta edição a contar, em detalhes, a trajetória de Ermelinda e de outras mulheres — as "herdeiras" — que seguiram seus passos dentro da escola.
Por que a rede se chama Ermelinda Ottoni
Escolhemos esse nome porque ele resume exatamente o que queremos ser: a mulher que, nos bastidores, garante que um projeto maior do que ela mesma continue existindo. Ermelinda não está nos livros de história com o destaque que merece — e essa rede é, entre outras coisas, uma forma de mudar isso.